Casa Fiat de Cultura reabre e comemora 15 anos

Lentamente a vida cultural de Belo Horizonte vai voltando a acontecer e a reabertura dos museus e casas de cultura enchem nossos corações de alegria e esperança. A Casa Fiat volta a receber visitantes no dia 3 de novembro através de agendamento feito pela plataforma Sympla. E a partir do dia 2 de dezembro, de acordo com a manutenção do atual estado de controle da pandemia, o acesso será liberado seguindo os protocolos de segurança propostos pelas autoridades de saúde do município e adotados pela administração do espaço cultural.

Para começar os trabalhos em grande estilo, a Casa Fiat volta não com uma exposição, mas com uma ação – Aleijadinho, a arte revelada: o legado de um restauro na Casa Fiat de Cultura” – que vai permitir que visitantes presenciais e virtuais acompanhem o processo de restauração de três peças de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

O trabalho, que envolve uma equipe multidisciplinar, cuidados artesanais e muita tecnologia poderá ser observado em todos os seus detalhes redes sociais da Casa Fiat, onde será exibida a websérie “A arte do restauro”, que vai apresentar o making of de todo o processo e aspectos da vida e da obra de Aleijadinho. No dia 2 de dezembro será inaugurada a mostra que vai revelar as obras São Manuel e São Joaquim já restauradas, enquanto Sant’Ana continua em processo de restauração, ao vivo, para apreciação do público.

De acordo com o presidente da Casa Fiat de Cultura, Fernão Silveira, oferecer ao público a oportunidade de acompanhar um restauro ao vivo é mais do que reverenciar o passado, é cumprir o papel de valorizar a cultura e os múltiplos saberes, formando públicos capazes de vivenciar as muitas dimensões da arte e da sua identidade.

“Esse é um momento muito especial: a reabertura da casa depois de um ano e oito meses fechada, 45 anos da Fiat no Brasil e os nossos 15 anos. Com essa ação – que é muito mais que uma exposição –, queremos dar uma contribuição para Minas e para o Brasil, com a restauração dessas três obras tão especiais e, mais que isso, que o público acompanhe, aprenda. É uma coisa fascinante e que as pessoas, em geral, não têm acesso. A produção dessa ação foi muito cuidadosa para destacar a delicadeza, das minúcias desse trabalho. É uma ação muito especial”, explica Silveira.

As obras

O legado de Aleijadinho será rememorado pela Casa Fiat de Cultura por meio do processo de restauro das obras de Sant’Ana Mestra, pertencente à Capela de Sant’Ana, da comunidade de Chapada de Ouro Preto/MG; de São Joaquim, da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Raposos/MG; e de São Manuel, do acervo da Paróquia de Nossa Senhora do Bonsucesso, em Caeté/MG. A iniciativa acontece 60 anos depois que Jair Afonso Inácio, conservador-restaurador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), após restaurar a imagem de Sant’Ana Mestra, teve a oportunidade de observar as características definidoras do estilo que culminaram com a atribuição da peça a Aleijadinho.

A iconografia de Sant’Ana Mestra representa uma cena em que a santa, já idosa, sentada em uma cadeira vermelha, ensina sua filha Maria, de pé ao seu lado direito, as primeiras letras em um livro aberto sobre seu colo. Mãe de Maria e avó de Jesus, Sant’Ana é considerada a protetora dos lares e da família, bem como dos mineradores. Em Minas Gerais, diversas igrejas e capelas são dedicadas à santa, que também tem sua imagem replicada em oratórios em muitos lares brasileiros – devoção que começa no período colonial e segue até hoje. A imagem de Sant’Ana Mestra representa o modelo maternal e, por extensão, os valores da educação, da formação, especialmente moral e religiosa. Foi produzida na maturidade de Aleijadinho, na virada do séc. 18 para o séc. 19, sendo possivelmente contemporânea às imagens de Congonhas. A representação de uma cena estática, mas que traduz grande movimentação, por meio dos direcionamentos das dobras das vestes, das linhas de força que se entrecruzam e que levam o espectador, a cada momento, a dirigir seu foco para uma posição distinta da imagem são características bastante representativas do estilo barroco. Entretanto, a presença da rocalha na cadeira, a elegância de seu espaldar com áreas vazadas, e até mesmo o alongamento na representação de Sant’Ana indicam um trabalho já ao gosto do rococó.

Em Minas Gerais, o imenso culto a Sant’Ana fez com que a devoção a São Joaquim – avô do Menino Jesus – fosse, da mesma forma, largamente disseminada entre a população católica. Nessa imagem da fase madura de Aleijadinho, entre os séculos 18 e 19, São Joaquim é representado com idade avançada, barba e cabelos de coloração acinzentada, tendo como atributo o cajado. A diagonalização de suas linhas composicionais, o olhar e um dos pés dirigidos para um dos lados; a mão aberta em direção oposta a eles; a posição do cajado em relação às linhas do seu manto são todas características barrocas, mas já com alongamento e elegância do rococó.

Já a imagem de São Manuel é misteriosa: trata-se de um santo oriental, vindo da Pérsia, que surge somente em textos apócrifos, mas conquista fiéis em Portugal e alcança a religiosidade em Minas Gerais. Na representação de Aleijadinho, o santo tem o corpo perfurado por cravos, que atravessam seus ouvidos e as laterais do peito, e apresenta, no pescoço, a marca de sua decapitação. Em pé e com as mãos postas, leva na cintura um pano belamente drapeado, e à cabeça um resplendor de prata. Toda a composição é bastante vertical, uma referência ao rococó.

O trabalho: tecnologia e arte a favor da identidade

A restauração das obras de Aleijadinho será feita pelo Grupo Oficina do Restauro, com acompanhamento técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Antes do restauro começar foram realizadas pesquisas e análises das obras com o objetivo de coletar o maior número de informações sobre sua iconografia, os estudos estilístico-formais, o contexto histórico em que foram produzidas e o estado de conservação. Foram feitas fotos científicas usando fluorescência de ultravioleta, que permite analisar a cama pictórica e o estado de conservação dos vernizes superficiais, e infravermelho, para identificar possíveis riscos e desenhos que não são vistos a olho nu. Com esse tipo de fotografia é possível, por exemplo, identificar repinturas. O raio X também contribuiu para o conhecimento da estrutura interna das obras.

Segundo a restauradora e coordenadora do projeto de restauro, Rosangela Reis Costas, as obras apresentam um estado de conservação regular em diferentes estágios, com danos naturais causados pelo tempo, como a ação de cupins.

Todas as peças passarão pelos mesmos processos, que incluem, entre outras etapas, higienização, contenção de fissuras, complementação das partes faltantes com massa, reintegração de lacunas e manchas e aplicação de verniz. O valor do projeto não foi divulgado.

Uma das intervenções mais curiosas é a colocação das peças em uma bolsa sem presença de oxigênio com o objetivo de acabar com toda infestação de cupins. Depois disso, as partes sem pintura são imunizadas, criando uma barreira química para evitar novos ataques.

“Esse trabalho requisita uma equipe multidisciplinar com restauradores, arquitetos, historiadores, e pessoal e empresas especializadas, que trabalham com as fotos científicas. Essas são técnicas relativamente recentes e usadas ainda de forma pontual no mundo todo. Nesse aspecto considero que esse projeto tem uma função especial porque os conhecimentos gerados por essas tecnologias poderão ser aproveitados por outros pesquisadores e restauradores. As informações aqui coletadas podem subsidiar outros projetos. Esse é um investimento que se perpetua por resgatar e devolver obras de grande valor para a sociedade e também pelo legado de conhecimentos que deixa”, avalia Rosângela Costa.

Onde fica

Casa Fiat de Cultura

Circuito Liberdade

Praça da Liberdade, 10 – Funcionários – BH/MG

Ingressos: https://www.sympla.com.br/produtor/casafiatdecultura

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