Amazônia: quatro dias de navio pelo Rio Negro

Texto e  Fotos: Daniela Maciel – Jornalista e Historiadora  

Edição: Carla Silva, fundadora da PopFino

Não sei se a Amazônia é o lugar mais bonito que já conheci, mas, certamente, é o mais impactante. A imensidão de água e verde, o céu absolutamente coalhado de estrelas e, principalmente, a sua gente, integrada e consciente do seu papel para a proteção daquele patrimônio e sua responsabilidade diante de uma ideia de pátria brasileira fazem da Amazônia mais do que um substantivo, um adjetivo.

Daniela Maciel

A viagem de quatro dias pelo Rio Negro, feita em um luxuoso navio com a bandeira espanhola Iberostar, é inusitada pelo próprio meio de transporte. Entre tantas canoas, lanchas e barcos regionais, o navio, com ares de transatlântico, se mostra integrado. Diante da maior floresta tropical do mundo, tudo é pequeno e simples. Tudo faz parte de um concerto maior.

 

A partida, no fim da tarde, do porto de Manaus, com seu mercado em estilo inglês, datado do século XIX, é ao som de música clássica. A passagem pela ponte Rio Negro, já sob a luz da lua, marca que dali pra frente vamos conhecer um novo mundo. Aquele pequeno desespero que bate quando o sinal do celular começa a sumir logo é esquecido diante de tudo que se vê.

O primeiro passeio na manhã seguinte é pela mata primária. Parecendo encomendada, a chuva que cai é torrencial. Mesmo usando capa, ela entra pelo decote e sai pela perna da calça. É sinal de boas vindas. Ao voltar exaustos e embasbacados, loucos por um banho ainda antes do almoço, algo curioso chama a atenção: ninguém sente frio.

No navio os sotaques se misturam. Dos 125 passageiros, metade não tem no português a sua língua mãe. Toda tripulação é, no mínimo, bilíngüe. Os guias falam, pelo menos, três idiomas: português, uma língua estrangeira (inglês, espanhol, francês, alemão, italiano e outras) e mais a sua língua nativa, indígena. Aliás, os guias são a própria síntese do rio, da Amazônia. Eles nascem lá no alto, na fronteira, alguns, do outro lado, nos Andes. São quietos, donos de uma sabedoria milenar e pouco conhecida por nós, ignorantes do mundo europeizado. Vão descendo, se tornando fortes, caudalosos, falando português, negociando. E chegam à foz senhores da sua importância, universais, reverenciados, dominando a comunicação digital. Aos que ainda os chamam de exóticos apontam a imensidão do que são donos e dão o seu endereço: o Rio.

Os dias se passam entre jacarés, aves coloridas, botos, insetos que não enxergamos, mas sentimos. Cada descida de lancha, um turbilhão de emoções e novidades. Até o dia de acordar antes das cinco da manhã pra ver o nascer do sol de dentro do rio. Eu, que sempre achei uma bobagem aplaudir o sol, não me contive. No rio que não vemos as margens, o sol nasce lentamente de dentro d’água, tingindo o céu, dançando atrás das árvores, até se tornar esplendoroso. Não teve jeito: bati palmas empolgadamente.

Passear a noite, desligar o motor e as lanternas e se sentir tragado pelos barulhos da floresta é fantasmagoricamente tranquilizador. Os risos nervosos do início vão se tornando silêncio. As orientações do guia nos ensinam a começar a distinguir os instrumentos daquela sinfonia.

No último dia amanhece também ao som de música clássica para apreciarmos o encontro das águas. O nosso, agora tão nosso, Rio Negro, de águas mornas e cor de coca-cola, se encontra com as águas claras e terrosas do Solimões. São duas forças que se medem e se respeitam num balé que prevê a união, mas que precisa se conhecer pra se entregar.

GENTE

Talvez mais do que a natureza majestosa o que é impressionante na Amazônia é a sua gente. Seja a nascida ou a incorporada, quem chama aquelas terras, ou melhor, àquelas águas de casa, fala isso de boca cheia, ciente da sua responsabilidade de privilégio.

Entre a tripulação do navio alguns tons de pele e sotaques destoam do moreno índio que o sol implacável impôs à tez dos amazonenses de nascença. Os estrangeiros, como o diretor-geral adjunto e coordenador do cruzeiro, o holandês, Windfried Agust StraBer, que veio para o Brasil em uma missão humanitária, hoje não mais se imagina longe da floresta.

Mas são nas comunidades ribeirinhas onde a brasilidade fala mais alto. Na comunidade indígena “Dois Irmãos”, nossa expectativa era pelos artesanatos. Poucas vezes na vida, porém, encontrei tanta organização. A escola recebe em regime de semi-internato, estudantes das comunidades vizinhas e vai da pré-escola à universidade.  Somos recebidos com uma palestra seguida de uma apresentação. As crianças dançam e se divertem com a nossa ignorância. Logo estão de volta à rotina das aulas e nós entretidos entre os brinquedos e adornos oferecidos na feirinha.

Busco entender como funciona a economia do lugar e pergunto ao professor qual a importância dos turistas para o sustento local. Recebo com um soco no estômago a resposta: “nenhuma”. Ele me explica com didática paciência que eles não podem sobreviver da vinda dos turistas porque as visitas são inconstantes e, de outro lado, não podem receber turistas o tempo todo, pois isso atrapalharia a rotina das crianças. É uma lição de respeito e amor às futuras gerações. A maioria das comunidades vive da sua “Casa de Farinha”, que tem a produção vendida em Manaus.

Na comunidade cabocla somos agraciados com a legítima tapioca amazonense, feita apenas com manteiga. Ela dissolve na boca e nada é cobrado. No canto, uma caixinha pede contribuição em português, inglês e espanhol. Na lojinha não há bombons suficientes para servir a todos.

No Museu dos Seringueiros, a vida, a luta dos soldados da borracha. Quanto sangue e quanta vida para fazer pneus e outros artefatos de borracha. A memória que deveria ser de todos nós preservada por quem faz do Museu sua casa.

Na Amazônia ninguém é de uma cidade, todos são de um rio. A distância não é medida em quilômetros ou horas, mas em dias e tudo depende se é rio acima ou rio abaixo. Os rios são a vida, a estrada, da feira, o açougue e o CEP.

Todos que conversei demonstraram uma consciência plena da importância que têm para a consolidação do território brasileiro e da nossa identidade como nação. Fiquei muito impressionada com essa percepção de cada um, das pessoas mais simples. A imensidão faz daqueles homens e mulheres igualmente gigantes.

Já é hora de desembarcar. As malas que ocupam o hall principal dão um tom de tristeza, mas também é momento de contar a todos o que vimos. Os celulares despertam no frenesi de quem quer compartilhar tudo o que foi visto e sentido, como se fosse possível.

Ao fim, o meu sentimento é que todo brasileiro ao nascer, deveria receber um voucher, para que um dia possa conhecer aquele lugar que é seu e devemos lutar para que continue sendo

NAVIO

O navio Grand Amazon é o resultado da ousadia e da engenhosidade de um brasileiro e um espanhol. O primeiro queria poder subir o Rio Negro e o Solimões com pompa e luxo. O outro queria marcar a presença da sua empresa no mundo com algo que ninguém tivesse. O projeto que não tinha mais fôlego financeiro em Manaus ganhou um sócio internacional. Assim turistas do mundo inteiro ganharam um navio de padrão internacional, com 76 cabines, 82 metros de comprimento e 2,2 mil toneladas, para navegar pela imensidão da floresta. O projeto foi orçado em 15 milhões de dólares.

Foram necessários dez anos para que ele começasse a dar lucro e ter, pelo menos, metade dos passageiros brasileiros. O serviço é praticamente 24 horas, com dois bares, restaurante internacional, academia de ginástica, piscina, passeios, palestras e shows diários. O sistema é realmente “all inclusive”. Ainda conta com enfermaria e loja de conveniência.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Ana Amélia Hamdan Gontijo disse:

    Amei, Dani. Emocionante!

    1. Carla Silva disse:

      Uma emoção do tamanho do rio.

    2. Daniela Maciel disse:

      Obrigada! É algo marcante para a vida inteira. Todo mundo deveria ter o direito de fazer essa viagem.

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